E por falar em estrelas...

Quarta-feira, Junho 27, 2007

A dança dos sete véus

"(...) Pensei nesses últimos dias que cada um de nós acaba se prendendo na própria teia de lembranças, como se, em dado momento da vida, escolhêssemos um quarto e ali buscássemos refúgio. Escolhemos quase sempre o quarto onde anda guardada a memória da época em que nasceram nossos primeiros sonhos. É batata! Depois, fechamos a porta, porque é sabido que a alma escolhe a própria sociedade e depois fecha a porta. Algumas fecham-se com estrondo, outras em silêncio, mas quase todas acabam sendo fechadas antes do tempo, eu venho pensando nisso e nas causas que nos fazem terminar aprisionados na nostalgia de tempos idos, quando ainda nos era permitido sonhar.
Não temos tido muitos motivos para sonhar, admitamos. A chama do protesto, do amor próprio, do ´respeito é bom e eu gosto`, congelou-se numa imagem em preto e branco, de há muito tempo. E acho que a grande maioria de nós fica rodando em círculos, como um cão a caçar o próprio rabo, produzindo perguntas para as quais não conhecemos as respostas.
Por exemplo: em que momento resolvemos cruzar os braços? Em que momento desistimos de nos indignar, em que momento desistimos de aprender, de caminhar, de lutar, de buscar, de ir à superfície para sorver o ar? Em que momento resolvemos assistir calados ao teatro infame que a elite política deste país encena todos os dias? Em que momento permitimos que o rancor fosse ganhando espaço, impedindo o avanço, ceifando todo e qualquer lampejo de civilização?
(...) Nos quartos em que andamos trancados, além das especiarias, há o vestígio das civilizações que sonhamos. O traçado e a arqueologia. Cabe a nós resgatá-las. Cabe a nós pô-las em prática, antes que as portas se fechem e abafem o clamor daquilo que entendemos por vida."

(Miguel Falabella)

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