E por falar em estrelas...

segunda-feira, maio 28, 2007

Há um mundo em silêncio, por dentro, que pode esperar...

...
..
.




terça-feira, maio 15, 2007

As tartarugas não esquecem

(Miguel Falabella)

Há dias em que uma bebida a mais – a segunda, ou a terceira – embaralha as idéias e os assuntos que andavam arrumados em pilhas, subitamente, confundem-se e os anos e fatos resolvem misturar-se na contradança que é viver. Acontece com todos nós, às vezes, mesmo, sem sequer estarmos levemente inebriados. O tal riacho da consciência mostra-se revolto, certos dias, e suas águas correm sem lógica ou curso determinado.
Ontem, por exemplo, sentei-me para escrever a crônica e tinha na cabeça a imagem das bananeiras que ficavam no fundo do quintal da infância e que bordavam o muro do vizinho, onde cresciam alguns pés de fruta-pão. Ao lado, um vasto bambuzal, para onde os gatos corriam quando se viam ameaçados e que nós ansiávamos explorar, mas que era habitado por cobras terríveis, segundo minha avó.
Sentei-me para escrever sobre as tais bananeiras, porque creio que todos nós guardamos esse tipo de imagem e a carregamos pela vida afora, como um talismã tatuado na memória. São esses fragmentos de vida a nossa bússola particular, que indica o ponto de partida na vastidão dos oceanos. É para lá que obrigatoriamente temos de voltar na época da desova, assim como fazem as gigantescas tartarugas marinhas, que guardam para todo sempre o aroma da praia onde nasceram. Esqueça-se dela e todo o resto perde o sentido, eu pensava, quando lembrei que havia uma simpatia que as moças faziam no caule da bananeira, se não me falha a memória, durante as festas juninas. Já não lembro mais exatamente o que era, creio que enfiavam uma faca no caule, ou algo assim, na esperança de ver surgir a inicial do homem que as amaria. Se não for isso, algum leitor gentilmente me esclarecerá, eu tenho certeza.
Enfim, a tal simpatia correu como um busca-pé pelo quintal e me trouxe a imagem de meu tio Edmundo, de sobrancelhas imensas e cerradas, distribuindo fogos entre a gurizada. Mas isso era em São Cristóvão e as bananeiras ficavam em outro subúrbio.
A partir daí, o riacho resolveu ter vida própria e não consegui mais nenhum tipo de ordenação, muito pelo contrário, suas águas cristalinas incendiaram-se e fiquei sentado, qual um Nero indisposto, a ver as chamas lamberem toda e qualquer lembrança.
Temos vivido tempos difíceis, todos nós. Andamos assustados, acabrunhados, entorpecidos. Estamos pouco a pouco nos esquecendo da praia onde nascemos e o resultado não pode ser bom, pois foi lá que aprendemos as noções básicas de civilidade, respeito e amor ao próximo. O domingo é dedicado, portanto, à nossa porção tartaruga que volta ao ponto de origem, não importa a violência do oceano. Somos capazes de resgatar nossos princípios, enfim. Somos capazes de mudar o que quer que seja. Comecemos, então, por dentro.